A cerimônia terminou. O diploma chegou. Depois vieram a preparação, a prova da Ordem, a inscrição profissional e, finalmente, a carteira de advogado.
E então surge uma pergunta que milhares de jovens profissionais fazem todos os anos:
E agora?
Onde estão os clientes? Como conseguir a primeira causa? Devo abrir um escritório? Escolher imediatamente uma especialidade? Fazer uma pós-graduação? Associar-me a alguém? Trabalhar para outro advogado? Produzir conteúdo nas redes sociais?
Talvez uma das primeiras lições da advocacia seja justamente esta: a faculdade nos prepara para conhecer o Direito, mas a construção de uma carreira profissional exige outros conhecimentos que também precisam ser aprendidos.
Conhecer a lei é indispensável. Mas não basta.
É preciso aprender a lidar com pessoas, conquistar confiança, administrar expectativas, cobrar honorários, organizar o tempo, comunicar-se bem, construir relacionamentos, preservar a reputação e tomar decisões.
E quase ninguém começa sabendo fazer tudo isso.
Não tenha vergonha de estar começando
Existe uma ansiedade perigosa no início da carreira: querer parecer experiente antes de adquirir experiência.
Não é necessário.
O jovem advogado não precisa saber tudo. Precisa, entretanto, saber estudar, reconhecer seus limites e assumir apenas responsabilidades que esteja disposto a cumprir com seriedade.
Quando não souber, pesquise.
Quando tiver dúvida, estude.
Quando a questão ultrapassar sua experiência, procure alguém mais experiente.
Pedir orientação não diminui ninguém.
Ao contrário: uma das características do profissional responsável é perceber que uma dúvida esclarecida antes de agir pode evitar um problema muito maior depois.
Experiência não se improvisa. Ela se acumula.
Seu primeiro patrimônio não é o escritório
Muitos jovens imaginam que começar na advocacia significa alugar uma sala, comprar móveis, criar uma identidade visual e colocar uma placa na porta.
Tudo isso pode ter sua importância.
Mas existe um patrimônio muito mais valioso sendo construído desde o primeiro dia:
o seu nome.
A maneira como você atende uma pessoa, responde a uma mensagem, cumpre um horário, trata um servidor, conversa com um colega, prepara uma petição ou explica uma dificuldade ao cliente começa a formar sua reputação.
No início talvez você tenha poucos processos.
Poucos clientes.
Poucos recursos.
Mas já possui algo extremamente valioso: a possibilidade de decidir que tipo de profissional deseja ser.
Proteja o seu nome.
A carreira que você terá daqui a vinte anos começa nas pequenas atitudes que quase ninguém percebe hoje.
Não procure apenas clientes. Procure relacionamentos.
Uma das maiores angústias de quem começa é:
“Como conseguir clientes?”
A pergunta é legítima. Sem clientes, não existe advocacia privada sustentável.
Mas talvez seja melhor começar com outra pergunta:
“Como posso tornar-me uma pessoa em quem os outros confiam profissionalmente?”
Clientes são consequência de confiança.
E confiança não nasce apenas de publicidade.
Ela nasce da convivência, da competência demonstrada, da disponibilidade equilibrada, da palavra cumprida e da reputação construída ao longo do tempo.
Por isso, não transforme todas as pessoas que conhece em potenciais clientes.
Construa relações verdadeiras.
Conheça outros advogados. Participe de ambientes profissionais. Frequente eventos. Estude em grupo. Participe de associações e instituições. Converse com professores. Mantenha contato com antigos colegas.
E faça algo ainda mais importante:
ajude pessoas quando puder, sem calcular imediatamente o que receberá em troca.
Uma carreira sólida é construída por conhecimento, mas também por relações de confiança.
Escolha uma direção, não uma prisão
Outra preocupação comum é escolher rapidamente uma especialidade.
“Preciso ser criminalista?”
“Tributarista?”
“Especialista em família?”
“Trabalhista?”
Ter um campo de atuação pode ajudar muito na construção da autoridade profissional. Mas quem está começando não precisa imaginar que a primeira escolha será necessariamente definitiva.
Estude.
Observe.
Experimente.
Converse com profissionais de diferentes áreas.
Descubra quais problemas jurídicos despertam seu interesse e, principalmente, em quais deles você acredita que poderá entregar valor às pessoas.
Com o tempo, aprofunde-se.
É melhor tornar-se progressivamente reconhecido por fazer algumas coisas muito bem do que passar a carreira inteira tentando fazer tudo para todos.
Aprenda cedo a falar sobre honorários
Existe um assunto que muitas faculdades praticamente não ensinam: dinheiro.
Advocacia é profissão, mas também é trabalho.
Você precisará pagar suas despesas, investir em conhecimento, tecnologia, estrutura, livros, pessoas e construir sua independência financeira.
Portanto, cobrar adequadamente pelo trabalho não é motivo de constrangimento.
Aprenda desde cedo a conversar sobre honorários com clareza.
Não tenha vergonha de apresentar o valor do seu trabalho.
E tome cuidado com uma armadilha frequente do início da carreira: acreditar que cobrar muito pouco será necessariamente a melhor maneira de conquistar clientes.
Preço baixo pode conseguir uma contratação.
Confiança, competência e resultado profissional constroem uma carreira.
Não tente parecer bem-sucedido. Tente tornar-se competente.
As redes sociais acrescentaram uma dificuldade que gera sofrimento desnecessário.
Você abre o telefone e encontra colegas aparentemente prosperando.
Um está em um grande escritório.
Outro publicou um livro.
Outro está viajando.
Outro anuncia uma conquista profissional.
E você talvez esteja em casa tentando conseguir seu primeiro cliente.
Não compare o começo da sua caminhada com a parte da caminhada que outra pessoa decidiu mostrar.
Existe uma diferença enorme entre parecer bem-sucedido e construir uma carreira bem-sucedida.
Invista menos energia em demonstrar sucesso e mais em adquirir competência.
Leia.
Escreva.
Estude processos reais.
Observe audiências.
Acompanhe julgamentos.
Aprenda a elaborar contratos.
Treine sua comunicação.
Estude tecnologia.
Aprenda gestão.
Conheça pessoas.
A visibilidade pode acelerar uma carreira. Mas, sem conteúdo que a sustente, também pode revelar rapidamente aquilo que ainda não foi construído.
Encontre pessoas melhores do que você
Se pudesse oferecer um conselho especialmente importante a quem está começando, seria este:
não caminhe sozinho.
Aproxime-se de profissionais sérios.
Procure professores, colegas e advogados experientes com quem possa conversar.
Encontre pessoas que saibam aquilo que você ainda precisa aprender.
Não procure somente quem possa lhe oferecer clientes ou oportunidades. Procure também quem possa lhe oferecer referências de comportamento.
Observe como os bons profissionais tratam os clientes.
Como se comportam diante das dificuldades.
Como negociam.
Como reconhecem um erro.
Como enfrentam uma derrota.
Como preservam a serenidade.
Há conhecimentos que encontramos nos livros.
Há outros que somente a convivência profissional ensina.
Faça bem as pequenas oportunidades
Talvez sua primeira causa não seja importante para o mercado.
Mas provavelmente será muito importante para quem a entregou a você.
Nunca despreze uma causa apenas porque o valor econômico é pequeno.
Para o cliente, aquele processo pode representar seu patrimônio, sua família, sua liberdade, seu trabalho ou uma injustiça que lhe tira o sono.
Prepare-se.
Estude.
Dê retorno.
Explique.
Cumpra os prazos.
Não desapareça quando surgirem problemas.
As grandes carreiras raramente começam com grandes causas.
Muitas começam quando alguém resolve muito bem um problema aparentemente pequeno e outra pessoa diz:
“Procure aquela advogada.”
“Converse com aquele advogado. Eu confio nele.”
Talvez não exista publicidade mais poderosa do que essa.
Construa uma carreira, não apenas uma agenda de processos
Há uma diferença entre ter trabalho e construir uma carreira.
Uma agenda cheia pode significar movimento.
Uma carreira exige direção.
De tempos em tempos, pergunte a si mesmo:
Que advogado estou me tornando?
Estou aprendendo?
Minha reputação está crescendo?
As pessoas confiam mais em mim?
Estou melhorando financeiramente?
Estou construindo bons relacionamentos?
Tenho tempo para minha família e para mim?
Minha advocacia está me aproximando ou me afastando da vida que desejo construir?
Prosperidade profissional não deveria significar apenas ganhar mais dinheiro.
Prosperar também é conquistar independência, conhecimento, respeito, bons relacionamentos, tranquilidade e liberdade para fazer escolhas.
Comece com o que você tem
Talvez você ainda não tenha escritório.
Talvez não tenha clientes suficientes.
Talvez não tenha dinheiro para grandes investimentos.
Talvez ninguém conheça seu nome.
Tudo bem.
Comece com aquilo que está ao seu alcance.
Estude uma hora a mais.
Conheça uma pessoa nova.
Escreva um bom artigo.
Participe de um evento.
Ajude um colega.
Melhore seu atendimento.
Organize suas finanças.
Escolha uma área para aprofundar seus conhecimentos.
Faça muito bem o próximo trabalho que chegar às suas mãos.
A carreira não é construída em um único grande momento.
Ela é construída pela repetição de pequenas decisões corretas durante muitos anos.
Receber a carteira profissional autoriza alguém a exercer a advocacia.
Transformar-se em um advogado respeitado é outra conquista.
Essa não acontece em uma cerimônia.
Acontece todos os dias.
Por isso, se você acabou de se formar e continua perguntando:
“E agora?”
Talvez a resposta seja mais simples do que parece:
comece.
Comece pequeno, se necessário.
Mas comece com seriedade.
Comece estudando.
Comece servindo.
Comece construindo relações.
Comece protegendo seu nome.
E, sobretudo, não tenha tanta pressa para chegar.
Preocupe-se em saber quem você estará se tornando durante o caminho.
Esdras Dantas de Souza
Advogado e professor
Presidente da Associação Brasileira de Advogados (ABA)
Ex-Presidente da OAB/DF
Ex-Conselheiro Federal e ex-Diretor do Conselho Federal da OAB



