Há uma pergunta que gostaria de fazer a você logo no início desta nossa caminhada:
Quem está dirigindo a sua carreira hoje?
Pense alguns segundos antes de responder.
É você?
São as circunstâncias?
São os clientes que aparecem?
É o escritório onde trabalha?
São as dificuldades financeiras?
É aquilo que os outros esperam de você?
Ou você simplesmente está deixando a vida profissional acontecer?
Essa pergunta pode parecer incômoda, mas considero-a fundamental.
Ao longo de muitos anos convivendo com advogados e advogadas, percebi que existem profissionais extremamente competentes que não conseguiram alcançar o espaço que poderiam ocupar.
Não necessariamente por falta de conhecimento jurídico.
Muitas vezes, faltou-lhes uma coisa diferente:
assumir a liderança da própria carreira.
Liderança não começa com um cargo
Quando falamos em liderança, é comum imaginarmos imediatamente alguém presidindo uma instituição, comandando uma empresa, dirigindo um escritório ou liderando uma equipe.
Mas quero propor outra compreensão.
A primeira pessoa que você precisa aprender a liderar é você mesmo.
Antes de dirigir uma equipe, precisamos dirigir nossa trajetória.
Antes de estabelecer metas para outras pessoas, precisamos estabelecer metas para nós mesmos.
Antes de cobrar iniciativa dos outros, precisamos desenvolver a nossa.
É por isso que acredito que a liderança profissional começa muito antes do primeiro cargo.
Ela começa quando o advogado deixa de perguntar apenas:
“Que oportunidade aparecerá para mim?”
e começa a perguntar:
“Que profissional eu quero me tornar?”
Essa mudança aparentemente simples pode transformar uma carreira.
A faculdade terminou. E agora?
Há uma dificuldade particular na formação dos profissionais do Direito.
Durante a faculdade, existe um caminho relativamente organizado.
Há disciplinas.
Professores.
Provas.
Semestres.
Horários.
Currículo.
Alguém praticamente nos diz qual será o próximo passo.
Depois da formatura, tudo muda.
O diploma é entregue e, de repente, o profissional percebe que não existe mais uma grade curricular dizendo o que deverá fazer nos próximos cinco anos.
Agora é ele quem precisa decidir.
Em que área atuar?
O que estudar?
Com quem se relacionar?
Que competências desenvolver?
Onde pretende chegar?
Como deseja ser reconhecido?
Que tipo de profissional pretende tornar-se?
É justamente nesse momento que começa uma das disciplinas mais importantes da vida profissional — e talvez uma das menos ensinadas:
a gestão da própria carreira.
Não espere ser descoberto
Existe uma ideia que pode prejudicar muitos profissionais talentosos:
“Se eu trabalhar bem, um dia alguém perceberá.”
Pode acontecer.
Mas talvez não aconteça.
Competência é indispensável, mas competência escondida pode permanecer desconhecida durante muitos anos.
Não estou defendendo exibicionismo.
Muito menos a construção artificial de uma personagem nas redes sociais.
Estou falando de algo diferente.
Estou falando de presença profissional.
O advogado precisa participar.
Precisa conviver.
Precisa estudar.
Precisa produzir.
Precisa compartilhar conhecimento.
Precisa construir relacionamentos.
Precisa estar onde as discussões importantes de sua área acontecem.
Ninguém precisa gritar para ser percebido.
Mas também não podemos passar a carreira inteira escondidos e depois lamentar que ninguém tenha reconhecido aquilo que nunca mostramos.
Pare de entregar sua carreira ao acaso
Imagine dois jovens advogados igualmente competentes.
O primeiro trabalha, atende os clientes que aparecem, estuda quando surge alguma necessidade e espera novas oportunidades.
O segundo também trabalha e atende seus clientes.
Mas faz algo mais.
Define uma área na qual pretende aprofundar seus conhecimentos.
Estabelece uma rotina de estudo.
Participa de eventos.
Conhece colegas.
Escreve pequenos artigos.
Compartilha conhecimento.
Procura professores e profissionais mais experientes.
Participa de instituições.
Aceita desafios.
Cria projetos.
Ajuda pessoas.
Depois de dez anos, provavelmente essas duas carreiras estarão em lugares muito diferentes.
Não necessariamente porque um deles seja mais inteligente.
Mas porque um decidiu construir intencionalmente sua trajetória.
Isso é liderança pessoal.
Comece perguntando onde você quer chegar
Não é necessário possuir um plano perfeito para os próximos vinte anos.
A vida muda.
As oportunidades mudam.
Nós também mudamos.
Mas precisamos ter alguma direção.
Pergunte a si mesmo:
Como gostaria de ser reconhecido profissionalmente daqui a cinco anos?
Talvez você queira tornar-se referência em Direito de Família.
Talvez queira construir um escritório.
Talvez queira ingressar na docência.
Talvez queira atuar no Direito Empresarial.
Talvez queira escrever.
Talvez queira exercer liderança institucional.
Talvez queira simplesmente possuir uma advocacia respeitada, financeiramente sustentável e que lhe permita viver com dignidade.
Não existe uma única resposta correta.
O importante é que a resposta seja sua.
Porque quem não escolhe minimamente uma direção corre o risco de passar muitos anos caminhando para destinos escolhidos pelas circunstâncias.
Transforme intenção em comportamento
Dizer “quero tornar-me referência” não transforma ninguém em referência.
É necessário perguntar:
O que uma pessoa que deseja tornar-se referência faz todos os dias?
Ela estuda.
Acompanha sua área.
Produz conhecimento.
Participa dos debates.
Constrói relacionamentos.
Cumpre compromissos.
Trata bem as pessoas.
Protege sua reputação.
Compartilha aquilo que sabe.
Reconhece aquilo que ainda não sabe.
E repete esses comportamentos durante anos.
É assim que a liderança é construída.
Não em um grande acontecimento.
Mas na soma de pequenas atitudes.
Não confunda liderança com vaidade
Existe outra advertência que considero necessária.
Liderar a própria carreira não significa viver obcecado por reconhecimento.
Quem coloca o aplauso como objetivo pode tornar-se prisioneiro da opinião dos outros.
O reconhecimento deve ser consequência.
O objetivo deve ser tornar-se um profissional melhor e mais útil.
Quanto mais conhecimento você possui, mais pode ajudar.
Quanto mais pessoas conhece, mais pode aproximar.
Quanto maior sua influência, maior pode ser sua capacidade de servir.
Por isso, uma liderança verdadeiramente respeitada não pergunta apenas:
“Como posso crescer?”
Pergunta também:
“Quem pode crescer comigo?”
Essa diferença é enorme.
Você não precisa esperar autorização
Talvez ninguém o convide para escrever.
Escreva.
Talvez ninguém o convide para organizar um grupo de estudos.
Organize.
Talvez ninguém o convide para participar de determinado debate.
Prepare-se e procure os espaços adequados.
Talvez ninguém lhe entregue um projeto.
Crie um.
Talvez ninguém diga que você está pronto.
Continue estudando e comece.
Existe um momento na carreira em que precisamos parar de esperar autorização para desenvolver nossas capacidades.
Isso não significa atropelar pessoas.
Não significa desrespeitar hierarquias.
Não significa agir com arrogância.
Significa compreender que a responsabilidade pela nossa evolução profissional não pode ser terceirizada.
Liderança também é assumir responsabilidade
Há uma característica que observo nas pessoas que exercem liderança verdadeira:
elas assumem responsabilidade.
Quando algo dá errado, procuram compreender o que poderiam ter feito melhor.
Quando percebem uma deficiência, estudam.
Quando não conhecem alguém, aproximam-se.
Quando não existe um projeto, propõem.
Quando encontram uma dificuldade, procuram caminhos.
Isso não significa acreditar que podemos controlar tudo.
Não podemos.
Existem crises econômicas.
Existem injustiças.
Existem limitações pessoais.
Existem circunstâncias familiares.
Existem portas que se fecham apesar de todo o nosso esforço.
Liderança pessoal não é imaginar que controlamos o mundo.
É compreender que, dentro daquilo que podemos controlar, precisamos assumir nossa parte.
Construa uma carreira que tenha a sua identidade
Talvez este seja um dos maiores objetivos desta série de mentorias.
Quero ajudá-lo a construir uma carreira que não seja simplesmente uma cópia da carreira de outra pessoa.
Você pode admirar profissionais.
Pode possuir referências.
Pode aprender com pessoas mais experientes.
Eu mesmo aprendi — e continuo aprendendo — com muitas pessoas.
Mas chegará o momento de construir o seu próprio caminho.
Sua maneira de advogar.
Sua maneira de tratar as pessoas.
Sua área de conhecimento.
Sua reputação.
Sua contribuição.
Sua história.
Porque liderança também é isso:
ter coragem para construir uma trajetória que tenha a nossa identidade.
Comece hoje
Se você chegou até aqui esperando uma fórmula extraordinária para tornar-se líder, talvez minha primeira orientação pareça simples demais.
Mas é justamente por ela que precisamos começar:
assuma o comando da sua carreira.
Não espere o próximo ano.
Não espere o escritório crescer.
Não espere aparecer o cliente ideal.
Não espere receber um cargo.
Não espere alguém reconhecer seu potencial.
Comece com aquilo que possui.
Onde você está.
Com os recursos disponíveis.
Escolha uma direção.
Estude.
Aproxime-se de pessoas.
Participe.
Compartilhe.
Crie.
Ajude.
E continue.
A liderança que um dia poderá exercer sobre muitas pessoas começa silenciosamente quando você consegue responder com convicção à pergunta que fiz no início:
Quem está dirigindo a sua carreira?
Espero que, a partir de hoje, sua resposta seja:
Eu estou.
Desafio desta Mentoria
Reserve alguns minutos e escreva, sem preocupação com palavras bonitas, as respostas para quatro perguntas:
1. Onde estou profissionalmente hoje?
2. Onde gostaria de estar daqui a cinco anos?
3. Pelo que gostaria que meu nome fosse lembrado na advocacia?
4. Qual atitude concreta posso tomar nos próximos sete dias para começar a caminhar nessa direção?
Não guarde a quarta resposta para algum dia.
Faça nesta semana.
Liderança começa quando intenção se transforma em ação.
Esdras Dantas de Souza
Advogado, professor de Direito e presidente da Associação Brasileira de Advogados (ABA). Ao longo de sua trajetória profissional, exerceu a advocacia pública vinculada à União, presidiu a OAB/DF, foi conselheiro federal e diretor da OAB Nacional, Juiz Titular do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal e conselheiro do Conselho Nacional do Ministério Público.



