Mentoria 2 – Saia da invisibilidade: competência que ninguém conhece dificilmente gera oportunidades

Ser competente é indispensável, mas nem sempre suficiente para construir uma carreira reconhecida. Nesta mentoria, vamos conversar sobre como o advogado pode tornar seu trabalho, seu conhecimento e sua contribuição profissional conhecidos com ética, sobriedade e consistência — sem transformar posicionamento em exibicionismo ou autopromoção vazia.



Quero começar esta nossa segunda conversa com uma pergunta:

Quantas pessoas sabem que você é bom naquilo que faz?

Não estou perguntando quantas pessoas seguem você nas redes sociais.

Também não estou perguntando quantos elogios você recebe.

Estou perguntando algo muito mais importante:

quando alguém precisa de um profissional na sua área, o seu nome é lembrado?

Talvez você estude muito.

Talvez conheça profundamente determinada matéria.

Talvez atenda seus clientes com dedicação.

Talvez escreva excelentes petições.

Talvez seja respeitado pelas pessoas que trabalham diretamente com você.

Mas existe uma questão que precisa ser enfrentada:

quem, além dessas pessoas, conhece a qualidade do seu trabalho?

Essa pergunta nos leva a um dos problemas que encontro com frequência na advocacia:

a invisibilidade profissional.

Há excelentes advogados que quase ninguém conhece

Ao longo da vida profissional, conheci advogados extraordinariamente preparados que permaneceram praticamente desconhecidos.

Também conheci profissionais que, sem necessariamente possuírem mais conhecimento do que outros, aprenderam a participar, comunicar, relacionar-se e compartilhar aquilo que sabiam.

Com o passar dos anos, tornaram-se conhecidos.

Foram convidados para palestras.

Receberam indicações.

Participaram de projetos.

Ocuparam espaços institucionais.

Construíram relacionamentos.

Tornaram-se referências.

Isso nos ensina alguma coisa importante:

o mercado não consegue reconhecer aquilo que não consegue enxergar.

Não basta possuir conhecimento.

Em algum momento, precisamos permitir que esse conhecimento seja percebido.

Mas cuidado: visibilidade não é exibicionismo

Talvez alguns profissionais resistam a essa ideia.

Pensam:

“Não gosto de aparecer.”

“Não quero ficar me promovendo.”

“Prefiro que meu trabalho fale por mim.”

Eu compreendo.

E, em certa medida, concordo.

A advocacia exige sobriedade.

Reputação não se constrói com barulho.

Autoridade não nasce de uma fotografia bonita ou de uma publicação nas redes sociais.

Mas existe uma diferença enorme entre autopromoção vazia e posicionamento profissional.

Autopromoção é tentar convencer as pessoas de que você é importante.

Posicionamento é permitir que as pessoas conheçam aquilo que você sabe, aquilo que faz e aquilo em que acredita profissionalmente.

Um procura aplausos.

O outro constrói reconhecimento.

Essa diferença precisa estar muito clara.

Não diga apenas que sabe. Demonstre.

Existe uma maneira muito elegante de construir autoridade:

ensine aquilo que você sabe.

Imagine um advogado que atua em Direito Sucessório.

Todas as semanas ele estuda.

Acompanha decisões.

Resolve problemas.

Atende famílias.

Analisa inventários.

Participa de negociações.

Depois de alguns anos, possui um patrimônio intelectual extraordinário.

Mas todo esse conhecimento permanece dentro do escritório.

Por que não transformar parte dele em contribuição?

Pode escrever um artigo explicando uma questão recorrente.

Pode produzir um pequeno vídeo.

Pode participar de uma palestra.

Pode colaborar com uma comissão temática.

Pode ministrar uma aula.

Pode responder, de maneira educativa, a uma dúvida frequente.

Pode participar de um congresso.

Pode escrever um livro.

Pode orientar colegas mais jovens.

Perceba a diferença.

Ele não precisa publicar:

“Sou uma grande autoridade em Direito Sucessório.”

Pode simplesmente começar a compartilhar conhecimento de qualidade sobre Direito Sucessório.

Com o tempo, serão as outras pessoas que farão a associação:

“Quando penso nesse assunto, lembro daquele profissional.”

Isso é autoridade.

Escolha pelo que deseja ser lembrado

Existe outro problema que merece nossa atenção.

Alguns profissionais querem ser conhecidos por tudo.

Um dia falam sobre Direito de Família.

No outro, Direito Penal.

Depois, Direito Empresarial.

No dia seguinte, comentam política, comportamento, economia e qualquer assunto que esteja produzindo repercussão.

No final, as pessoas conhecem o profissional, mas não sabem exatamente pelo que deveriam procurá-lo.

Por isso, faça uma pergunta:

Qual assunto profissional você gostaria que fosse associado ao seu nome?

Não significa que você precise atuar exclusivamente naquela área.

Muito menos que não possa mudar ao longo da carreira.

Significa apenas construir alguma clareza.

Se você deseja tornar-se referência em determinada matéria, precisa começar a ocupar intelectualmente esse espaço.

Estude.

Pesquise.

Escreva.

Fale.

Participe.

Contribua.

E faça isso repetidamente.

Consistência vence ansiedade

Muitos profissionais começam um projeto de posicionamento e desistem rapidamente.

Publicam três artigos.

Gravam quatro vídeos.

Participam de dois eventos.

E esperam resultados imediatos.

Como os resultados não aparecem, abandonam tudo.

A construção de reputação não funciona assim.

Autoridade profissional é resultado de acumulação.

Um bom artigo talvez não transforme sua carreira.

Cinquenta bons artigos começam a contar uma história.

Uma palestra talvez não faça você ser reconhecido.

Anos compartilhando conhecimento podem fazê-lo.

Uma participação institucional talvez não produza grandes oportunidades.

Uma trajetória de contribuição certamente será percebida.

Não tenha pressa para parecer importante.

Tenha disciplina para tornar-se relevante.

Existe uma grande diferença entre as duas coisas.

A internet ampliou as possibilidades

Durante muito tempo, para que um advogado fosse conhecido fora de seu círculo profissional, dependia de oportunidades relativamente restritas.

Congressos.

Universidades.

Livros.

Jornais.

Instituições.

Eventos profissionais.

Hoje existe algo extraordinário.

Um advogado que trabalha em uma pequena cidade pode produzir um excelente conteúdo e ser encontrado por profissionais do país inteiro.

Pode publicar artigos.

Pode participar de encontros virtuais.

Pode ministrar aulas.

Pode produzir vídeos.

Pode manter um portal.

Pode compartilhar reflexões profissionais.

Isso democratizou a possibilidade de construir presença.

Mas também criou um perigo:

a tentação de substituir competência por aparência de competência.

É preciso resistir a isso.

Não construa uma personagem

As redes sociais podem nos levar a acreditar que precisamos parecer permanentemente bem-sucedidos.

Grandes escritórios.

Viagens.

Eventos.

Prêmios.

Fotografias.

Frases de impacto.

Tudo parece extraordinário.

Mas liderança profissional não pode depender da construção de uma personagem.

Mais cedo ou mais tarde, a realidade encontra a imagem.

Por isso, minha recomendação é simples:

não tente parecer maior do que você é. Trabalhe para tornar-se melhor do que você era.

Mostre aquilo que efetivamente conhece.

Quando não souber, diga que não sabe.

Quando estiver aprendendo, não tenha vergonha de aprender.

Quando errar, corrija.

A credibilidade nasce dessa coerência.

Sua reputação está sendo construída também quando você não publica nada

Visibilidade não acontece apenas nas redes sociais.

Talvez este seja um dos maiores equívocos do nosso tempo.

Você está construindo posicionamento quando atende bem um cliente.

Quando trata um colega com respeito.

Quando responde uma mensagem.

Quando cumpre um horário.

Quando honra um compromisso.

Quando participa de uma reunião.

Quando ajuda alguém sem esperar recompensa.

Quando se prepara para uma audiência.

Quando entrega aquilo que prometeu.

Quando alguém indica seu nome, está colocando parte da própria reputação nas suas mãos.

Não desperdice isso.

O melhor marketing de um advogado continua sendo a confiança que seu nome inspira.

Relacionamentos também produzem visibilidade

Há profissionais que estudam muito, mas convivem pouco.

Isso pode limitar suas oportunidades.

A advocacia é exercida entre pessoas.

Colegas indicam colegas.

Professores lembram de antigos alunos.

Clientes recomendam profissionais.

Instituições aproximam pessoas.

Congressos criam relacionamentos.

Comissões reúnem profissionais com interesses semelhantes.

Por isso, não construa apenas currículo.

Construa relações.

Conheça pessoas.

Escute suas histórias.

Interesse-se pelo trabalho delas.

Apresente pessoas umas às outras.

Compartilhe oportunidades.

Ajude quando puder.

Mas faça isso com autenticidade.

Networking não é colecionar contatos.

É construir confiança.

Compartilhe antes de pedir

Existe um princípio de liderança profissional que considero especialmente poderoso:

procure contribuir antes de procurar receber.

Quer participar de uma instituição?

Pergunte como pode ajudar.

Quer aproximar-se de determinado grupo?

Contribua.

Quer ser conhecido em sua área?

Compartilhe conhecimento.

Quer construir relacionamentos?

Seja útil às pessoas.

Quem passa a vida perguntando “o que vou ganhar com isso?” talvez consiga algumas oportunidades.

Mas quem constrói uma trajetória perguntando “como posso contribuir?” começa a construir algo muito maior:

reputação.

Crie sua presença profissional

Você não precisa estar em todas as redes sociais.

Não precisa produzir conteúdo diariamente.

Não precisa transformar sua vida em espetáculo.

Mas considero importante que, quando alguém procure seu nome, consiga compreender minimamente:

quem é você, o que faz, o que estuda e com que temas contribui.

Sua presença profissional pode ser simples.

Um perfil bem organizado.

Alguns bons artigos.

Participações em eventos.

Uma página profissional.

Vídeos educativos.

Publicações periódicas.

Projetos dos quais participa.

Não precisamos estar em todos os lugares.

Precisamos estar nos lugares certos, com conteúdo verdadeiro e alguma constância.

Faça seu nome circular pelo motivo certo

Existe uma frase que gostaria que você guardasse:

Seu objetivo não deve ser fazer seu nome aparecer. Deve ser fazer seu nome significar alguma coisa.

Quando seu nome for mencionado, o que você gostaria que as pessoas pensassem?

“É competente.”

“É confiável.”

“Conhece profundamente aquela matéria.”

“Cumpre o que promete.”

“Ajuda os colegas.”

“É uma pessoa equilibrada.”

“Vale a pena ouvi-lo.”

Isso é muito mais importante do que números de seguidores.

Porque seguidores podem ser conquistados rapidamente.

Confiança, não.

A autoridade é concedida pelos outros

Você pode colocar no seu perfil todas as qualificações que desejar.

Pode apresentar seus títulos.

Pode falar sobre sua experiência.

Tudo isso possui seu lugar e pode ajudar as pessoas a compreenderem sua trajetória.

Mas existe uma autoridade que nenhum currículo consegue conceder.

É aquela que surge quando outras pessoas começam espontaneamente a procurar você porque confiam no que você sabe.

Quando indicam seu nome.

Quando pedem sua opinião.

Quando convidam você para ensinar.

Quando desejam ouvi-lo.

Nesse momento, alguma coisa aconteceu.

Você deixou de apenas anunciar suas qualificações.

Passou a ser reconhecido por elas.

É essa autoridade que devemos buscar.

Não espere ficar pronto

Talvez você esteja pensando:

“Quando eu estudar mais, começo.”

“Quando fizer minha pós-graduação, escrevo.”

“Quando tiver mais experiência, gravo um vídeo.”

Cuidado.

Naturalmente, devemos respeitar os limites do nosso conhecimento e jamais ensinar aquilo que não dominamos.

Mas sempre haverá alguma coisa que ainda não sabemos.

Você não precisa saber tudo para compartilhar aquilo que sabe com responsabilidade.

Comece pequeno.

Escreva sobre um assunto que conhece.

Participe de uma discussão.

Prepare uma apresentação.

Compartilhe uma decisão importante com um comentário técnico.

Ajude alguém que está alguns passos atrás de você.

E continue estudando.

Saia da invisibilidade sem perder a essência

Não estou convidando você a tornar-se famoso.

Estou convidando você a não esconder aquilo que pode oferecer.

Se possui conhecimento, compartilhe.

Se possui experiência, ensine.

Se possui uma boa ideia, apresente.

Se pode ajudar, ajude.

Se desenvolveu um projeto, mostre.

Se acredita em determinada contribuição para a advocacia, trabalhe por ela.

Faça isso com ética.

Faça com sobriedade.

Faça sem arrogância.

Faça sem transformar cada gesto em propaganda.

Mas faça.

Porque existe uma diferença entre humildade e invisibilidade.

Humildade não exige que você desapareça.

O advogado pode ser discreto e presente.

Pode ser sóbrio e conhecido.

Pode ser humilde e respeitado.

Pode divulgar seu trabalho sem transformar sua carreira em espetáculo.

Pode construir autoridade sem precisar proclamar que é autoridade.

Talvez essa seja uma das formas mais bonitas de reconhecimento profissional:

não precisar dizer às pessoas que você é importante porque aquilo que você faz já começou a falar por você.


Desafio desta Mentoria

Nesta semana, faça um pequeno diagnóstico da sua visibilidade profissional.

Responda:

1. Se alguém pesquisar meu nome hoje, compreenderá claramente quem sou profissionalmente e em que área atuo?

2. Pelo que gostaria que meu nome fosse lembrado?

3. Que conhecimento possuo hoje que poderia ser útil a outras pessoas?

4. Qual foi a última vez que compartilhei esse conhecimento sem esperar nada em troca?

Agora vem a parte mais importante.

Escolha um assunto que você realmente domine e produza uma contribuição profissional nos próximos sete dias.

Pode ser um pequeno artigo.

Um vídeo.

Uma aula.

Uma palestra.

Uma publicação técnica.

Uma participação em uma comissão.

Ou simplesmente uma explicação útil para colegas da sua área.

Não comece tentando impressionar.

Comece tentando ajudar.

Depois, repita.

É assim que começamos a sair da invisibilidade sem abandonar aquilo que deve sustentar toda carreira respeitável:

competência, ética, sobriedade e consistência.

Sobre o autor

Esdras Dantas de Souza

Advogado, professor de Direito e presidente da Associação Brasileira de Advogados (ABA). Ao longo de sua trajetória profissional, exerceu a advocacia pública vinculada à União, presidiu a OAB/DF, foi conselheiro federal e diretor da OAB Nacional, Juiz Titular do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal e conselheiro do Conselho Nacional do Ministério Público.

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