Por Esdras Dantas de Souza
A democracia precisa de instituições fortes. Mas instituições fortes também precisam da confiança do cidadão.
Passei grande parte da minha vida profissional convivendo com instituições.
Como advogado, aprendi a recorrer a elas.
Como professor de Direito, aprendi a estudá-las e explicá-las.
Como dirigente da advocacia, aprendi a dialogar com elas.
E, ao exercer diferentes responsabilidades públicas e institucionais ao longo da minha trajetória, tive a oportunidade de conhecê-las também por dentro.
Talvez por isso tenha aprendido uma lição que considero fundamental:
respeitar as instituições não significa permanecer em silêncio diante de seus erros.
Ao contrário.
Quem acredita verdadeiramente nas instituições deve desejar que elas sejam cada vez melhores, mais transparentes, mais eficientes e, sobretudo, mais próximas das pessoas para as quais foram criadas.
É sobre isso que quero conversar.
Não apenas hoje.
Pretendo trazer para este espaço, daqui por diante, algumas reflexões sobre o Brasil, nossas instituições, a Justiça, a cidadania, a ética pública e, principalmente, sobre a relação entre aqueles que exercem o poder e aqueles em nome dos quais o poder é exercido.
Porque existe uma pergunta que me inquieta:
o cidadão brasileiro ainda se sente verdadeiramente representado, protegido e respeitado pelas suas instituições?
Quando a confiança começa a desaparecer
Há algo particularmente preocupante em uma democracia.
Não é a existência de divergências.
Divergir faz parte da democracia.
Também não é a crítica às autoridades.
Criticar o exercício do poder é próprio de uma sociedade livre.
O que deve preocupar é quando uma parcela da sociedade começa a acreditar que as instituições já não conseguem responder adequadamente aos seus problemas.
Quando o cidadão trabalha, paga seus impostos, cumpre suas obrigações e, ainda assim, encontra dificuldades para receber serviços públicos essenciais.
Quando olha para o Estado e enxerga uma estrutura gigantesca, mas nem sempre percebe essa mesma grandeza na solução dos problemas cotidianos.
Quando acompanha denúncias de corrupção, desperdícios, privilégios ou mau uso dos recursos públicos e começa a acreditar que nada mudará.
Quando observa conflitos permanentes entre autoridades e Poderes enquanto seus próprios problemas continuam esperando solução.
Nesse momento surge algo perigoso:
a descrença.
E a descrença institucional não escolhe ideologia.
Pode atingir quem está à direita.
Pode atingir quem está à esquerda.
Pode atingir quem está no centro.
Pode atingir, sobretudo, aquele cidadão que já se cansou dessas classificações e simplesmente deseja viver em um país que funcione.
Pesquisa nacional realizada pela Ipsos-Ipec em julho de 2026 registrou o Índice de Confiança Social brasileiro em 55 pontos numa escala de zero a cem. O estudo acompanha a confiança dos brasileiros em instituições e grupos sociais desde 2009.
Esses números merecem reflexão.
Porque nenhuma democracia se sustenta apenas sobre leis.
Ela também precisa de confiança.
O cidadão não pode desaparecer da República
Nossa Constituição começa estabelecendo fundamentos que jamais deveriam ser tratados como palavras meramente solenes.
Entre eles está a cidadania.
E a mesma Constituição estabelece que todo poder emana do povo e que os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário são independentes e harmônicos entre si.
Talvez precisemos recordar isso com maior frequência.
O cidadão não é um detalhe da República.
É a sua razão de existir.
O Estado não existe para servir aos seus ocupantes.
Os cargos públicos não existem para proporcionar prestígio a quem os exerce.
O orçamento público não pertence aos governantes.
O dinheiro público não pertence ao governo.
Pertence à sociedade.
E exercer poder, em qualquer democracia, deveria significar antes de tudo assumir uma enorme responsabilidade perante aqueles em nome dos quais esse poder é exercido.
Corrupção não é apenas dinheiro desviado
Há outra questão sobre a qual precisamos falar com serenidade, mas também com firmeza.
A corrupção.
Precisamos evitar dois extremos.
O primeiro é banalizá-la.
O segundo é utilizar acusações de corrupção irresponsavelmente como instrumento para destruir adversários.
Corrupção deve ser investigada, comprovada e punida dentro da lei, respeitando-se o devido processo e as garantias fundamentais.
Mas sua gravidade não pode ser minimizada.
Quando recursos públicos são desviados, desperdiçados ou utilizados sem responsabilidade, o prejuízo não cabe apenas numa planilha.
Pode significar menos recursos para uma escola.
Menos atendimento em um hospital.
Menos infraestrutura.
Menos segurança.
Menos políticas públicas.
Menos oportunidades.
Por isso, combater a corrupção não deveria ser bandeira de direita ou de esquerda.
Deveria ser compromisso republicano.
O próprio Plano de Integridade e Combate à Corrupção 2025–2027 da administração federal reúne 260 ações e trabalha, entre seus eixos, qualidade do uso dos recursos públicos, transparência, combate à corrupção e fortalecimento institucional.
Há, portanto, um reconhecimento institucional de que integridade, transparência e qualidade do gasto público são questões permanentes do Estado brasileiro — e não temas pertencentes a um único governo.
Defender as instituições também é cobrar as instituições
Precisamos superar uma falsa escolha.
Não precisamos optar entre defender as instituições e criticá-las.
Podemos — e devemos — fazer as duas coisas.
Instituições democráticas precisam ser protegidas contra aventuras autoritárias, intimidações e tentativas de destruição.
Mas precisam igualmente aceitar fiscalização, crítica, transparência e limites.
Nenhum Poder deve pretender substituir os demais.
Nenhuma autoridade deveria considerar-se imune à crítica.
Nenhum agente público deveria esquecer que sua autoridade decorre da Constituição e das leis.
E nenhuma instituição se torna menor porque reconhece um erro.
Muitas vezes acontece justamente o contrário.
Instituições capazes de corrigir seus próprios excessos tornam-se maiores.
Precisamos reaprender a discordar
Existe ainda outro problema que me preocupa.
Transformamos demasiadas discussões nacionais numa disputa entre dois lados.
Se alguém critica determinada decisão, rapidamente querem saber de que lado político está.
Se defende determinada instituição, recebe um rótulo.
Se questiona outra, recebe o rótulo contrário.
Isso empobrece enormemente o debate público.
Um país com mais de duzentos milhões de habitantes não pode ser intelectualmente reduzido a duas arquibancadas.
Precisamos recuperar o direito de pensar.
De concordar hoje e discordar amanhã.
De reconhecer o acerto de quem pensa diferente.
De apontar o erro de quem admiramos.
Coerência não significa defender pessoas. Significa defender princípios.
Não quero falar contra o Brasil. Quero falar pelo Brasil que podemos construir
É exatamente aqui que quero explicar o propósito destas reflexões.
Não pretendo transformar este espaço em trincheira partidária.
Não quero escrever contra governos.
Não quero escrever contra oposições.
Não quero escolher previamente quem merece aplauso e quem merece condenação.
Quero falar sobre princípios.
Sobre Constituição.
Sobre Justiça.
Sobre liberdade.
Sobre responsabilidade.
Sobre ética pública.
Sobre os limites do poder.
Sobre respeito ao dinheiro público.
Sobre os direitos do cidadão.
E, quando necessário, também sobre os deveres do cidadão.
Governos passam.
Presidentes passam.
Parlamentares passam.
Ministros passam.
Dirigentes passam.
Nós também passamos.
A República permanece.
É por isso que precisamos cuidar dela.
Talvez esteja chegando a hora de uma nova conversa
Depois de tantos anos de vida pública, advocacia, magistério e atividade institucional, sinto que tenho também uma responsabilidade.
Compartilhar aquilo que aprendi.
Não como dono da verdade.
Não tenho essa pretensão.
Quero participar como cidadão.
Um cidadão que estudou o Direito durante toda a vida, que viveu intensamente a advocacia e que teve a oportunidade de conhecer diferentes instituições brasileiras por dentro.
E que, justamente por conhecê-las, continua acreditando que elas podem melhorar.
Quero fazer perguntas.
Quero provocar reflexões.
Quero ouvir quem pensa diferente.
Quero defender aquilo em que acredito.
E quero, principalmente, contribuir para que voltemos a discutir os problemas brasileiros sem transformar cada divergência em uma guerra.
Talvez esteja faltando justamente isso ao nosso país:
conversar mais e guerrear menos.
O Brasil que deixaremos
Em determinado momento da vida, começamos a fazer perguntas diferentes.
Já não pensamos apenas no que conquistamos.
Começamos a pensar no que deixaremos.
E há uma pergunta que tenho feito a mim mesmo:
que Brasil estamos ajudando a deixar para aqueles que virão depois de nós?
Não tenho todas as respostas.
Mas tenho convicção de que vale a pena procurar por elas.
Um Brasil em que a lei seja respeitada.
Em que nenhuma autoridade esteja acima dela.
Em que o dinheiro público seja tratado com responsabilidade.
Em que os Poderes respeitem seus limites constitucionais.
Em que a corrupção seja enfrentada com rigor e dentro da legalidade.
Em que divergentes possam conversar.
Em que instituições sejam fortes porque são respeitadas — e respeitadas porque merecem a confiança das pessoas.
E, sobretudo, um país no qual o brasileiro volte a sentir que não é mero espectador da República.
Porque existe uma verdade constitucional que jamais deveríamos esquecer:
o poder existe por causa do povo.
E quando o cidadão deixa de confiar nas instituições, não perde apenas determinado governo, determinada autoridade ou determinado Poder.
Perdemos todos nós.
Perde o Brasil.
Esdras Dantas de Souza
Advogado, professor de Direito e presidente da Associação Brasileira de Advogados (ABA). Foi advogado público vinculado à União, presidente da OAB/DF, conselheiro federal e diretor do Conselho Federal da OAB, Juiz Titular do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal e conselheiro do Conselho Nacional do Ministério Público.



