Como escolher uma área de atuação sem ficar prisioneiro dela

Uma das perguntas que mais inquietam quem começa na advocacia é aparentemente simples: “Em qual área devo atuar?” Direito Civil? Criminal? Trabalhista? Empresarial? Tributário? Família e Sucessões? Previdenciário? Administrativo?

Antes do advogado, existe a pessoa


A dúvida é legítima. Em um mercado cada vez mais competitivo, encontrar um campo de atuação e aprofundar-se nele pode ajudar o advogado a desenvolver competência, tornar-se conhecido e construir autoridade.

O problema começa quando transformamos uma escolha profissional em uma sentença definitiva.

Há jovens advogados que acreditam precisar descobrir, logo nos primeiros meses de profissão, aquilo que farão pelo resto da vida.

Não precisam.

Escolher uma direção é importante. Imaginar que nunca poderemos mudar de direção é desnecessário — e pode até impedir nosso crescimento.

Você não precisa começar sabendo onde terminará

A faculdade apresenta diferentes ramos do Direito, mas a experiência profissional modifica nossa percepção sobre eles.

Uma disciplina que parecia fascinante em sala de aula pode não proporcionar a mesma satisfação na prática.

E pode acontecer o contrário.

Uma área que recebeu pouca atenção durante a graduação pode revelar-se extremamente interessante quando o advogado começa a lidar com problemas reais.

Isso acontece porque escolher uma área profissional não envolve apenas conhecimento jurídico.

Envolve pessoas.

Rotina.

Ambiente de trabalho.

Perfil pessoal.

Mercado.

Oportunidades.

Remuneração.

Propósito.

Qualidade de vida.

Um advogado pode admirar profundamente determinado ramo do Direito e descobrir que não aprecia a rotina profissional associada a ele.

Por isso, no começo, permita-se conhecer.

A primeira escolha deve oferecer direção, não aprisionamento.

Não escolha apenas porque está “dando dinheiro”

É natural considerar o aspecto financeiro.

Advocacia é profissão e também é atividade econômica. Precisamos pagar nossas contas, sustentar nossas famílias, investir no escritório e construir patrimônio.

Portanto, observar oportunidades de mercado é perfeitamente razoável.

O problema é escolher uma área exclusivamente porque alguém afirmou que ela está “dando dinheiro”.

Mercados mudam.

Legislações mudam.

Tecnologias surgem.

Modelos de negócio desaparecem.

Novas necessidades aparecem.

Uma área muito procurada hoje pode tornar-se altamente competitiva amanhã.

E existe uma questão ainda mais pessoal:

Você gostaria de passar muitos anos resolvendo aquele tipo de problema?

Dinheiro importa.

Mas construir uma carreira exclusivamente sobre uma oportunidade momentânea pode ser perigoso.

Procure a interseção entre três elementos:

aquilo em que você pode tornar-se muito bom, aquilo de que o mercado necessita e aquilo que pode sustentar economicamente sua carreira.

Quando esses elementos começam a se encontrar, há uma base interessante para crescer.

Observe os problemas, não apenas os nomes das áreas

Talvez seja melhor perguntar:

“Que tipo de problema eu gostaria de aprender a resolver muito bem?”

Essa pergunta muda a perspectiva.

O cliente não acorda pensando que precisa contratar um especialista em determinado ramo jurídico.

Ele acorda preocupado porque sua empresa enfrenta um conflito.

Porque seu casamento terminou.

Porque recebeu uma cobrança.

Porque alguém faleceu e deixou patrimônio.

Porque corre o risco de perder um imóvel.

Porque está sendo investigado.

Porque precisa contratar empregados.

Porque deseja estruturar um negócio.

Porque sofreu uma injustiça.

As áreas jurídicas são formas de organizar o conhecimento.

A advocacia existe para enfrentar problemas humanos e empresariais concretos.

Quanto melhor você compreender determinado problema, maior será sua capacidade de oferecer soluções relevantes.

Antes de se apresentar como referência, torne-se uma

Existe uma tentação contemporânea que merece atenção.

Às vezes, o profissional escolhe uma área numa segunda-feira e, poucos dias depois, já deseja apresentar-se publicamente como grande referência naquele assunto.

A comunicação profissional é importante.

Produzir conteúdo é importante.

Posicionar-se também é importante.

Mas posicionamento não substitui formação.

Antes de preocupar-se excessivamente com o título que colocará na apresentação profissional, pergunte:

Quanto tenho estudado esse assunto?

Quantos casos já analisei?

Conheço a jurisprudência relevante?

Compreendo os riscos?

Consigo explicar esse problema com clareza?

Tenho profissionais experientes com quem possa discutir casos difíceis?

Se aparecer amanhã um cliente com uma questão complexa nessa área, estou preparado para atendê-lo com responsabilidade?

Autoridade profissional não nasce da maneira como nos apresentamos. Nasce daquilo que somos capazes de entregar.

A comunicação apenas torna essa competência visível.

Especialização é profundidade, não isolamento

Escolher uma área de atuação não significa ignorar o restante do Direito.

Esse talvez seja um dos maiores equívocos sobre especialização.

Os problemas reais raramente respeitam as divisões das disciplinas acadêmicas.

Uma sucessão pode envolver questões empresariais, tributárias e familiares.

Uma empresa pode enfrentar simultaneamente problemas societários, trabalhistas, contratuais e tributários.

Uma questão imobiliária pode exigir conhecimentos de contratos, sucessões, família e processo.

Por isso, quanto mais especializado o profissional se torna, mais importante pode ser compreender as conexões com outras áreas.

Você não precisa dominar tudo.

Precisa saber reconhecer quando determinado problema ultrapassa sua competência.

E então surge outra habilidade fundamental:

saber trabalhar com outros profissionais.

O advogado moderno não precisa ser aquele que resolve tudo sozinho.

Pode ser aquele que conhece profundamente determinado assunto e construiu uma excelente rede para aquilo que não domina.

Dizer “não sei” pode proteger sua carreira

Existe uma frase difícil para muitos profissionais:

“Não sei.”

Parece uma demonstração de fraqueza.

Não é.

O problema não está em não saber.

O problema está em não saber e fingir que sabe.

Quando um cliente apresentar uma questão fora da sua experiência, existem várias possibilidades responsáveis.

Você pode estudar.

Pode consultar um colega.

Pode trabalhar em parceria.

Pode encaminhar o cliente a alguém mais preparado.

O que não deveria fazer é transformar a necessidade de faturar em autorização para improvisar.

Uma indicação bem-feita pode gerar mais confiança do que uma causa mal conduzida.

O cliente pode esquecer que você não atuava naquela área.

Dificilmente esquecerá que você assumiu algo que não sabia fazer.

Permita que a experiência lhe dê novas informações

Imagine um advogado que inicia a carreira no contencioso.

Depois de alguns anos, percebe que sua maior habilidade está na negociação.

Outro começa atendendo pessoas físicas e descobre enorme interesse pelo ambiente empresarial.

Uma profissional entra no Direito de Família e, a partir dos casos que recebe, desenvolve interesse especial por sucessões.

Outro passa anos numa determinada área e percebe que a tecnologia criou uma nova possibilidade de atuação que simplesmente não existia quando ele se formou.

Essas mudanças não significam necessariamente falta de foco.

Podem significar amadurecimento.

Foco não é permanecer imóvel. Foco é saber por que estamos seguindo determinada direção.

Cuidado com o custo de permanecer apenas porque já investiu

Quanto mais tempo dedicamos a alguma coisa, mais difícil parece abandoná-la.

“Já fiz uma pós-graduação.”

“Já trabalhei cinco anos nisso.”

“Meu escritório é conhecido nessa área.”

“Meus clientes me procuram por isso.”

Tudo isso merece consideração.

Mas existe uma pergunta que também precisa ser feita:

“Se eu estivesse começando hoje, sabendo o que sei agora, escolheria novamente este caminho?”

Se a resposta for não, talvez seja necessário refletir.

Não significa abandonar tudo impulsivamente.

Mudanças profissionais podem e devem ser planejadas.

É possível reduzir gradualmente determinada atuação enquanto se desenvolve outra.

É possível aproveitar conhecimentos anteriores numa nova área.

É possível criar uma transição.

Experiência acumulada raramente precisa ser desperdiçada.

Às vezes ela simplesmente será utilizada de outra maneira.

Construa uma especialidade, mas preserve sua curiosidade

Um dos perigos de tornar-se experiente é deixar de explorar.

No início, não sabemos quase nada e perguntamos muito.

Depois de alguns anos, corremos o risco de acreditar que já encontramos nossa resposta definitiva.

Mas o Direito continua mudando.

A sociedade muda.

Os clientes mudam.

A tecnologia muda.

E nós também mudamos.

Por isso, mesmo depois de encontrar sua principal área de atuação, continue observando.

Leia assuntos diferentes.

Converse com profissionais de outros campos.

Acompanhe mudanças econômicas e sociais.

Conheça novas tecnologias.

Entenda como seus clientes vivem e trabalham.

Muitas das grandes oportunidades profissionais aparecem justamente na interseção entre aquilo que já conhecemos e alguma transformação que começa a acontecer.

Como escolher, então?

Não existe uma fórmula capaz de eliminar todas as dúvidas.

Mas algumas perguntas podem ajudar:

Que assuntos despertam minha curiosidade mesmo quando ninguém me obriga a estudá-los?

Que tipo de problema gosto de resolver?

Em quais atividades minhas habilidades parecem produzir melhores resultados?

Existe demanda real por esse trabalho?

Consigo imaginar um modelo economicamente sustentável nessa área?

Que rotina profissional acompanha essa escolha?

Quero viver essa rotina?

Tenho acesso a pessoas com quem possa aprender?

Essa área combina com a vida que desejo construir?

Não responda apenas com entusiasmo.

Observe sua experiência.

E permita que as respostas sejam revistas com o tempo.

Sua profissão é maior do que sua especialidade

Talvez este seja o ponto principal.

Você pode tornar-se conhecido como advogado de família, criminalista, tributarista, empresarial, trabalhista ou por qualquer outra área.

Isso ajuda o mercado a compreender aquilo que você faz.

Mas não permita que uma especialidade se transforme em toda a sua identidade.

Antes da área existe o profissional.

Existe sua capacidade de aprender.

Sua reputação.

Sua rede de relacionamentos.

Sua maneira de pensar.

Sua experiência.

Seus valores.

Sua capacidade de adaptação.

Tudo isso pode acompanhá-lo mesmo quando a área mudar.

Escolha. Aprofunde-se. Mas continue livre.

Não use o medo de escolher como desculpa para passar a vida inteira sem aprofundar-se em nada.

Escolha uma direção.

Estude seriamente.

Trabalhe.

Construa experiência.

Torne-se progressivamente melhor.

Permita que as pessoas associem seu nome à solução de determinados problemas.

Isso é valioso.

Mas não entregue a uma decisão tomada no início da carreira o poder de determinar todos os seus próximos trinta ou quarenta anos.

Uma boa escolha profissional deve abrir caminhos, não fechar todas as outras portas.

A maturidade talvez esteja justamente em conseguir fazer duas coisas que parecem contraditórias:

ter foco suficiente para construir autoridade e liberdade suficiente para mudar quando a vida mostrar um caminho melhor.

Portanto, escolha sua área.

Dedique-se a ela.

Tente tornar-se excelente.

Mas, de tempos em tempos, faça a si mesmo uma pergunta:

“Ainda sou eu quem está escolhendo esta carreira — ou foi a carreira que começou a escolher por mim?”

A resposta pode ajudá-lo a decidir não apenas em qual área deseja atuar.

Pode ajudá-lo a decidir que vida profissional deseja construir.


Esdras Dantas de Souza
Advogado e professor
Presidente da Associação Brasileira de Advogados (ABA)
Ex-Presidente da OAB/DF
Ex-Conselheiro Federal e ex-Diretor do Conselho Federal da OAB

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