Os primeiros cinco anos da advocacia: o que realmente importa

Os primeiros anos da advocacia podem ser desconcertantes.

Ninguém constrói uma grande carreira completamente sozinho


Depois de tanto estudar para chegar à profissão, o jovem advogado descobre que o diploma e a carteira profissional não trazem clientes, não ensinam a cobrar honorários, não garantem renda e tampouco eliminam a insegurança diante do primeiro problema realmente difícil.

De repente, é preciso decidir.

Aceito esta causa?

Quanto devo cobrar?

Abro meu escritório?

Trabalho com alguém?

Faço uma pós-graduação?

Em qual área devo atuar?

Como consigo clientes?

Por que meus colegas parecem estar avançando mais rapidamente do que eu?

São perguntas naturais.

O problema começa quando a ansiedade por encontrar respostas rápidas leva o profissional a tomar decisões que deveriam ser amadurecidas.

Os primeiros cinco anos da advocacia não precisam ser os anos em que você conquista tudo. Devem ser, sobretudo, os anos em que você constrói as bases para aquilo que deseja conquistar.

Não tenha pressa de parecer pronto

Há uma pressão silenciosa sobre quem está começando.

É preciso mostrar que está trabalhando.

Mostrar o escritório.

Mostrar reuniões.

Mostrar audiências.

Mostrar conquistas.

Mostrar sucesso.

Mas carreira profissional não se constrói pela aparência de crescimento. Constrói-se pela capacidade de entregar aquilo que se promete.

Nos primeiros anos, uma pergunta é muito mais importante do que “como posso parecer bem-sucedido?”:

“O que preciso aprender para me tornar realmente bom?”

Essa mudança de pergunta pode transformar uma carreira.

Porque quem investe os primeiros anos apenas em parecer pode construir uma imagem.

Quem investe em aprender começa a construir patrimônio profissional.

O primeiro grande investimento deve ser em competência

Se os recursos forem limitados — como normalmente são no início — escolha cuidadosamente onde colocá-los.

Um escritório sofisticado pode esperar.

Algumas aparências podem esperar.

Conhecimento não deveria esperar.

Mas também é preciso compreender o que significa conhecimento profissional.

Não estou falando apenas de acumular diplomas.

Uma boa formação acadêmica é valiosa. Cursos, especializações, livros e congressos podem ampliar extraordinariamente a capacidade profissional.

Entretanto, existe uma distância entre conhecer o Direito e saber exercer a advocacia.

Você precisa aprender a entrevistar um cliente.

Identificar o verdadeiro problema escondido em uma narrativa confusa.

Ler documentos.

Avaliar riscos.

Construir uma estratégia.

Escrever com clareza.

Negociar.

Falar em público.

Organizar prazos.

Dar uma notícia desagradável.

Dizer que determinada pretensão não possui fundamento.

Cobrar pelo trabalho.

E, algumas vezes, recusar uma causa.

Essa também é formação profissional.

Não aceite tudo apenas porque está começando

Quando existem poucos clientes, cada oportunidade parece indispensável.

É compreensível.

Mas existe um perigo nessa necessidade: aceitar trabalhos para os quais você ainda não está preparado ou causas que jamais deveria ter aceitado.

O fato de estar começando não significa que você deva aceitar qualquer cliente, qualquer área ou qualquer condição.

Antes de assumir um trabalho, pergunte:

Tenho conhecimento suficiente para conduzi-lo?

Se não tenho, consigo estudar ou buscar apoio de alguém experiente?

Tenho estrutura para cumprir aquilo que estou assumindo?

O cliente compreendeu os riscos?

Os honorários são compatíveis com a responsabilidade?

Há alguma questão ética que me incomoda?

Aprender a selecionar também faz parte da advocacia.

Às vezes, um “não” dito no momento certo protege anos de reputação.

Procure experiência antes de procurar status

Nos primeiros anos, trabalhar ao lado de profissionais mais experientes pode valer muito mais do que determinados símbolos de independência.

Há quem tenha enorme ansiedade para possuir imediatamente o próprio escritório.

Não existe nada de errado nisso.

Mas independência física não significa necessariamente independência profissional.

Se surgir a oportunidade de trabalhar, colaborar ou conviver com bons profissionais, observe o que os livros não ensinam.

Como eles recebem um cliente?

Como estudam um processo?

Como se preparam para uma audiência?

Como reagem diante de um erro?

Como negociam honorários?

Como tratam colegas e servidores?

Como se comportam quando ganham?

E, principalmente, como se comportam quando perdem?

A convivência com bons profissionais encurta alguns caminhos que precisaríamos percorrer sozinhos durante muitos anos.

Escolha bons ambientes

A carreira também é influenciada pelos ambientes que frequentamos.

Se você convive permanentemente com profissionais que desprezam o estudo, reclamam de tudo, tratam a ética como ingenuidade e enxergam colegas apenas como concorrentes, existe o risco de começar a considerar esse comportamento normal.

Procure ambientes que elevem suas referências.

Esteja perto de pessoas que estudam.

Que trabalham.

Que compartilham conhecimento.

Que celebram o crescimento dos outros.

Que respeitam a profissão.

Que sabem discordar sem transformar divergência em inimizade.

Isso vale para escritórios, universidades, associações, grupos de estudo e relacionamentos profissionais.

Nem toda oportunidade vem de uma pessoa. Algumas vêm do ambiente em que decidimos permanecer.

Construa uma rede antes de precisar dela

Networking é frequentemente mal compreendido.

Alguns imaginam que significa aproximar-se de pessoas importantes para conseguir alguma vantagem.

Não deveria ser assim.

Uma boa rede profissional é formada por relações construídas antes da necessidade.

Conheça colegas.

Conheça profissionais de outras áreas.

Participe de eventos.

Converse.

Escute.

Compartilhe informações úteis.

Indique um colega quando determinado trabalho não for da sua área.

Ajude quando puder.

E não desapareça das relações quando não estiver precisando de nada.

Com o passar dos anos, você perceberá que muitas oportunidades importantes não chegam por anúncios.

Chegam por confiança.

Alguém lembra do seu nome.

Alguém faz uma indicação.

Alguém pergunta se você poderia participar de um projeto.

Alguém precisa de um profissional exatamente na área em que você começou a se tornar conhecido.

Relacionamentos não substituem competência.

Mas frequentemente permitem que a competência seja descoberta.

Aprenda a cuidar do dinheiro desde o primeiro honorário

Talvez você demore algum tempo para ganhar bem.

Mesmo assim, não espere ganhar muito para aprender a administrar.

Separe, tanto quanto possível, as finanças pessoais das profissionais.

Conheça suas despesas.

Reserve recursos para tributos e obrigações.

Evite criar uma estrutura maior do que sua receita consegue sustentar.

Invista em conhecimento e ferramentas que efetivamente aumentem sua capacidade de trabalhar.

E resista à tentação de utilizar o primeiro crescimento financeiro para financiar uma aparência de sucesso.

Existe uma diferença importante entre faturar, ganhar dinheiro e construir patrimônio.

Quanto mais cedo o advogado compreender isso, maior poderá ser sua liberdade profissional no futuro.

Um profissional permanentemente pressionado por dívidas pode acabar aceitando clientes, causas e condições que recusaria se tivesse maior tranquilidade financeira.

Por isso, organização financeira também pode ser uma forma de independência profissional.

Comece a construir um nome

Nos primeiros cinco anos talvez você ainda não tenha patrimônio financeiro relevante.

Mas pode começar a acumular outro patrimônio extraordinário:

credibilidade.

Cumpra horários.

Retorne mensagens.

Não abandone clientes sem informação.

Não prometa resultados.

Admita quando precisar estudar.

Trate com respeito quem não pode lhe oferecer absolutamente nada.

Não fale mal de colegas para conquistar clientes.

Não transforme confidências profissionais em histórias para impressionar outras pessoas.

Não invente uma experiência que ainda não possui.

Cada uma dessas pequenas atitudes parece isoladamente insignificante.

Somadas durante anos, elas passam a responder uma pergunta fundamental:

“Posso confiar nessa pessoa?”

É dessa resposta que muitas carreiras são construídas.

Não tenha medo de corrigir a rota

Talvez você comece no Direito Civil e descubra paixão pelo Direito Empresarial.

Talvez imagine que deseja litigar e perceba que possui grande capacidade para negociação.

Talvez abra um escritório e descubra que prefere integrar uma estrutura maior.

Talvez escolha uma área apenas porque parecia promissora e depois perceba que não deseja passar décadas trabalhando nela.

Mudar não significa necessariamente fracassar.

Às vezes significa que você aprendeu algo sobre si mesmo que ainda não sabia quando tomou a primeira decisão.

Os primeiros anos também servem para isso.

Experimentar, observar, aprender e ajustar.

O importante é não permanecer durante décadas em uma escolha feita aos 25 anos apenas para não admitir que você mudou.

Não use a carreira dos outros como relógio

Talvez este seja um dos conselhos mais difíceis.

Um colega da faculdade pode prosperar rapidamente.

Outro pode entrar em um grande escritório.

Outro pode tornar-se conhecido nas redes sociais.

Outro pode conseguir clientes importantes.

Outro pode comprar aquilo que você ainda não consegue comprar.

E você pode começar a pensar:

“Estou atrasado.”

Atrasado em relação a quê?

Carreiras possuem circunstâncias diferentes, oportunidades diferentes, pontos de partida diferentes e objetivos diferentes.

Comparar permanentemente sua trajetória com a vitrine dos outros pode produzir duas coisas perigosas: ansiedade e decisões precipitadas.

Use bons profissionais como inspiração e referência.

Mas não transforme a vida deles na régua da sua própria existência.

Então, o que realmente importa nos primeiros cinco anos?

Importa aprender.

Importa trabalhar.

Importa errar pouco — e aprender muito com os erros inevitáveis.

Importa encontrar boas referências.

Importa construir relacionamentos.

Importa aprender a cobrar.

Importa organizar o dinheiro.

Importa descobrir progressivamente onde você pode ser realmente bom.

Importa preservar seu nome.

E importa continuar.

Talvez, ao final dos primeiros cinco anos, você ainda não tenha o escritório que imaginou.

Talvez ainda não tenha alcançado a renda que gostaria.

Talvez sua carreira esteja muito distante daquela que sonhou na faculdade.

Isso, isoladamente, não significa que os cinco anos foram desperdiçados.

Faça outras perguntas:

Sou um advogado melhor do que quando comecei?

As pessoas confiam mais no meu trabalho?

Tenho relacionamentos profissionais que não tinha?

Cometo menos erros?

Consigo perceber problemas que antes nem enxergava?

Estou construindo alguma coisa que pode crescer nos próximos dez anos?

Se as respostas forem positivas, talvez esteja acontecendo algo muito importante, ainda que não apareça nas fotografias:

sua carreira está criando raízes.

E raízes quase nunca recebem aplausos.

Elas crescem escondidas.

Mas são justamente elas que permitem que uma árvore permaneça de pé quando chegam os ventos fortes.

Nos primeiros cinco anos da advocacia, portanto, não tenha como principal preocupação demonstrar ao mundo até onde você chegou.

Construa as raízes que permitirão chegar muito mais longe.


Esdras Dantas de Souza
Advogado e professor
Presidente da Associação Brasileira de Advogados (ABA)
Ex-Presidente da OAB/DF
Ex-Conselheiro Federal e ex-Diretor do Conselho Federal da OAB

Leia Também: